segunda-feira, 16 de maio de 2011

Cade o bom e velho rock´n roll ?






Texto by Dudu Guedes



Na semana passada, uma amiga do trabalho me perguntou: que musica eh essa ? Era meu celular, tinha acabado de receber uma ligacao e disparou Fake Plastic Trees. Mas eh sua ? Sim, eh minha, eu escolhi, respondi. Radiohead, bela melodia. Mas eh meio triste, ela emendou, tentando disfarcar. Outro amigo balancou a cabeca e concordou. De fato, a musica nao era das mais animadas e resolvi trocar. Disse pra me aguardarem ...


No dia seguinte, cheguei animado. Na primeira chamada, o celular vibrou empolgado e lancou logo um Miquinhos Amestrados na versao brasileira de Surf Safari, classico do Beach Boys. Diz a letra: Cabeludo rastafari, patricinha cherokee. Todas as tribos do surf safari, pegando onda por ai. Nao tem carater de protesto politico como um Cazuza, nem o romance de uma Marisa Monte, muito menos a poesia de um Geraldo Azevedo. Mas eh uma banda alto astral, musica com vida e energia. Anos 80 do mais purinho.


Pra minha surpresa, todos ficaram quietos. Insisti e fiz o celular repetir a musica umas 2 vezes. Um deles comentou: nao conheco, mas acho q ja ouvi em alguma festa ploc ... Eh tenho que assumir, estou ficando velho. Um amigo contemporaneo apareceu pra dar uma forca e comentou: vcs nunca ouviram leo jaime ? Ah, ja vi sim, mas como comentarista de futebol, retrucou o outro em tom de brincadeira.


Ver Miquinhos Amestrados, classico da minha geracao, reduzido a festa ploc eh como assistir a meus pais relembrando Rita Lee na banda Os Mutantes. Sinal de que nao sou mesmo da geracao Y.


Comecamos uma viagem musical saudosista e relembramos Os Titas,Ultraje a Rigor e RPM. Era uma epoca onde a forca estava mais nas pessoas e menos na tecnologia. O tempo se movia devagar. Momento de liberdade politica e revolucao sexual. Lembro de um LP inteiro do Ultraje a Rigor dedicado a quebrar os tabus do sexo. O surf ditava moda e corte de cabelo. Mochila da Company no colegio era sinal de respeito e um codigo de identificacao da tribo. Se a mochila fosse daquelas vermelha e verde, velha e ainda rabiscada, significaria mais rebeldia e mais aceitacao.



Assim como um braco ou perna engessada, que representava um tempo de molho longe da praia, mas tambem a oportunidade dos amigos te presentearem com frases de efeito. Semelhante ao facebook hoje. Mas nesse caso, o scrapbook e testemunhais ficariam no seu braco, tatuados no gesso para sempre. Quase pra sempre. A hora de retira-lo significava alforria pra longe dos banhos com sacos de plasticos, mas era como perder o login e senha da sua pagina, deletar pra sempre as palavras que aquelas pessoas escreveram ... Momento de libertacao e de perda.


A familia se reunia aos domingos para assistir Os Trapalhoes e na sexta, para ver Globo de Ouro. Nao tinha TV a cabo, internet, nem telefone celular. Trabalho de colegio ou faculdade era feito no papel almaco (assim q se escreve ?).


Marcar uma praia com os amigos requeria esforco e planejamento. Tinhamos que ligar para o telefone fixo e marcar um horario e ponto de encontro. Em geral, isso nos forcava a cumprir mais nossos compromissos e maior envolvimento com outras familia. Lembro de quantas vezes pulava da cama e corria para atender o telefone as 6 da manha. Em outras, nao chegava a tempo e ouvia minha mae com voz de sono na outra extensao. Eram meus amigos ligando para minha casa para combinar o surf matinal do fim de semana. Hoje saimos do coletivo para o individual. Tem suas vantagens se soubermos usar.


Um tempo onde o perigoso era aceitar bala de estranho. Hoje o perigo esta dentro de casa. Eh deixar nossos filhos navegando na internet ate tarde. Antes tinhamos horario para voltar da brincadeira das ruas, agora pra desligar o computador. Nao consigo entender as familias que dedicam o almoco inteiro a mexer no celular. Pai, mae e filhos numa sinfonia perfeita alimentando o tamagoshi portatil, sem interagir e olhar nos olhos. Experimente sentar num restaurante no domingo e olhe para os lados. Vera que tem uma legiao de seguidores desta tribo por ai. Isso tudo nem De Volta pro Futuro nem os Jetsons poderiam imaginar ...


Sem duvida, questionemos. Cade o bom e velho rock n roll ? Nas ultimas aparicoes de Barao Vermelho, lembro deles terem aberto o show de outras bandas. Como assim ? Para mim, Barao vermelho ainda eh e sempre sera atracao principal ... Outro dia, assisti no Jo a entrevista de uma banda chamada Restart ... Queria mesmo era dar um restart na minha televisao.


Eh ... Esse deve ser o conflito de toda geracao ... Nosso pais viveram e nossos filhos certamente viverao. O dificil nao eh envelhecer, mas assumir que aquilo que julgamos bom um dia ja se tornou velho demais. Como contam sobre as calcas boca de sino que hoje ficaram ultrapassadas. Saem do armario apenas para fazer aparicoes numa festa brega. Gel no cabelo ja foi moda e hoje em dia so usam os mais engomadinhos de Sao Paulo ...


Mas nao estamos perdidos ou esquecidos. Se ate a Xuxa e Renato Aragao sobreviveram a tudo isto, ainda temos uma esperanca. A unica chance eh nos reinventarmos. Nao adianta brigar contra a tecnologia, mas sim contra o mau uso que fazemos dela. Nao ditamos mais a moda, mas ainda podemos escolher as musicas e criar a trilha das nossas vidas. Vamos colocar um pouco mais de Miquinhos Amestrados no nosso cafe da manha. Mais Marisa Monte nos nossos amores. Mais Barao Vermelho nas amizades. E mais Geraldo Azevedo nos finais de tarde. Que isso tudo possa mesmo ser o progresso e nao o regresso. Amem.

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